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Patrícia Cândido - Onda de Protestos


Oi pessoal! Muitos tem perguntado o que acho desta Onda de Protestos.

Como “quase filósofa” (falta um semestre) gosto de observar o comportamento e o pensamento humano para depois estabelecer minha crítica radical, um dever de todo pensador. Quebrar a estrutura, causar rupturas e ir até a raiz da questão, estabelecendo um novo jeito de pensar, é basicamente a missão do filósofo. A Filosofia bem estabelecida nos leva de volta à idade do por quê, dos questionamentos do passado até a raiz da causa para que possamos compreender nosso presente.

A alguns dias atrás iniciou-se no Brasil um movimento de protestos e reivindicações, o que é extremamente saudável e normal em uma democracia. Pois bem, vemos frases por aí dizendo que o Brasil acordou e que está reivindicando seus direitos. Pelo que tenho observado, fazemos isso gritando nas quatro direções da rosa dos ventos que a culpa é do governo.

Do ponto de vista da unicidade, somos todos um e não existem vítimas, nem culpados, quiçá vilões. Se o governo está lá é porque alguém votou, afinal de contas vivemos em um regime democrático.

Se o governo é corrupto, o povo também é. Se o governo é ético, o povo também é. O governo é apenas um reflexo de nós mesmos. Pense nas pequenas corrupções que você comete a cada dia. Num país como o Brasil que é livre, leve e solto, raramente um cidadão consegue ser cem por cento honesto.

Vamos ao exame de consciência: se alguma vez você furou uma fila, ficou com o troco de alguém, pirateou um CD, mentiu para levar vantagem, avançou um sinal vermelho, não parou na faixa de segurança, você teve um ato de corrupção, pois não foi ético e prejudicou alguém. E todos nós algum dia já ferimos a Cosmoética, de alguma maneira.

A origem da democracia está na Grécia Antiga e lá existia o foro, as reuniões nas ágoras para que se discutissem as medidas governamentais. Era nesse debate, de forma justa e argumentada, que se chegava às conclusões do que seria melhor para todos, sem que prevalecessem os interesses pessoais. Levava-se em conta a coletividade. E para que a coletividade se beneficiasse, muitas vezes,  eram exigidos sacrifícios pessoais, que eram feitos com o maior prazer pois era para o benefício de todos.

Trazendo para a realidade atual do Brasil, onde está o foro? Onde estão as ágoras? Onde está a opinião do povo? Onde está a participação de todos?
O que mais escuto por aí são frases como:

“ Odeio política.
Não me envolvo em política.
Os políticos são corruptos.
Não discuto sobre política.
Políticos não prestam.”

Quem se posiciona desta maneira, está embebido no mais profundo mar de ignorância. Em primeiro lugar, o ser político não é o candidato, mas é o homem do povo, o habitante da “polis”, ou cidade, como na Grécia Antiga. Portanto, a palavra político faz alusão ao cidadão comum, a qualquer um de nós. Quando dizemos que odiamos a política, é porque odiamos nossos atos. Quando dizemos que odiamos o político, odiamos a nós mesmos.

A maioria da população vive uma grande infantilidade emocional, e essa infantilidade reflete-se nos governantes que nós temos.

Muitas pessoas que hoje participam dos protestos, inspiram-se no filme Zeitgeist, e chamam essa onda de protestos de “Movimento Zeitgeist”. O filme é excelente (disponível na internet) e propõe uma nova ordem mundial baseada em tecnologia feita de energia limpa, na extinção do dinheiro e do sistema capitalista. Assistindo a proposta do filme, seria o melhor dos mundos, mas de acordo com essa proposta, cada um teria de fazer a sua parte, e é aí que o caldo entorna, pois não há maturidade emocional suficiente para que esse sistema seja implantado.

Vamos argumentar sobre isso?

Será que estaríamos dispostos a fazer sacrifícios pessoais para o bem maior?
Desde que o mundo é mundo, existe a política do “pão e circo”. César, na Roma Antiga, dizia “ao povo, pão e circo”, pois sabia que o povo se contentava com migalhas e que isso gerava prestígio político. Hoje vemos isso nos comícios, nas vendas de votos e em muitos outros lugares.

Leia-se pão: assistencialismo e a infinidade de bolsas que o governo dá em vez de investir em  capacitação profissional para que cada um gere seus próprios recursos.

Leia-se circo: carnaval, futebol, datas comerciais, reality-shows e tudo aquilo que puder manter o povo bem alienado e distante da realidade, literalmente dopado para os problemas nevrálgicos que afetam nossa sociedade.

Então vamos fazer aqui um exercício, propondo uma libertação do estado de “circo”.

No Brasil, quando chega janeiro, o povo reclama que bilhões de reais são gastos com o Carnaval. Reclama, mas gosta, e muito! Então vamos imaginar que fosse criado um movimento Zeitgeist de boicote ao carnaval e que todo o dinheiro gasto com isso fosse destinado à educação, saúde, infra-estrutura, transporte, turismo, etc. Imaginemos que esse boicote fosse proposto da seguinte maneira: que ninguém beba nenhuma bebida alcoólica neste carnaval de 2014. Assim nenhuma cervejaria vai vender, não haverá publicidade, os hospitais não vão lotar de bêbados em coma alcoólica tirando o lugar de quem precisa de atendimento e o carnaval vai acontecer da mesma maneira, com a sua finalidade que é dançar, brincar, comemorar pelas ruas, só que sem bebida alcoólica. Então o Carnaval, a nossa maior festa popular cumpriria sua função social de gerar emprego aos artesãos, costureiras, estilistas e também de atrair turistas, só que sem bebida.

Então eu pergunto: quem estaria disposto a abrir mão da sua “cervejinha”? Quem estaria disposto nesse nível de profundidade? Pouquíssimas pessoas, pois a maioria quer beber para extravasar, para esquecer dos seus problemas. Um povo maduro emocionalmente organiza-se para resolver os problemas e não para esquecê-los. Pessoas sábias e maduras querem evoluir e crescer e não encher a cara para viverem dopadas e distantes da realidade.

A população revolta-se contra a construção dos estádios para a Copa e vai até lá assistir ao jogo!!! É muita incoerência!!! Se você não concorda, não consuma!!!

Vamos supor que depois de muitos protestos e manifestações o governo decida investir pesado na saúde e que o governante seja uma pessoa consciente e que faça a seguinte proposta ao povo: “Tudo bem, vamos melhorar a tecnologia da saúde e todos serão muito bem atendidos, mas nós governantes vamos implantar uma lei de que cada cidadão precise fazer a sua parte, participando de políticas públicas de prevenção. A partir de agora todo cidadão terá de fazer exercícios físicos regulares, se alimentar de forma saudável com muitas frutas e verduras e comer carne somente uma vez por semana. Ninguém mais poderá fumar, consumir açúcar e álcool, e vamos reduzir radicalmente os produtos industrializados, que possuem excesso de sódio e muitos conservantes que causam doenças.”

Quem estaria disposto a levar uma vida regrada para contribuir com o Ministério da Saúde? Quem estaria disposto nesse nível de profundidade? Quem estaria disposto a abrir mão da feijoada para o bem maior?

O povo quer receber, ganhar, de graça... Mas se tiver que abrir mão de algo, daí é melhor deixar pra lá, né?

Nós, os seres políticos ainda somos muito infantis. Precisamos compreender que o verdadeiro movimento Zeitgeist começa dentro de casa, com pais conscientes e maduros emocionalmente, capazes de educar as crianças que hoje “são órfãs de pais vivos” como diz o amigo Luiz Carlos Prates. Como levar consciência, maturidade emocional e equilíbrio a uma menina de seis anos que vive sem as menores condições de higiene, ouvindo tiros, e que nesta semana conheceu seu quinto padrasto?

Gente, a reforma começa dentro de cada um de nós, quando estamos dispostos a buscar conhecimento, sabedoria, equilíbrio e força interna. Muitos participantes dos protestos nem sabem o que estão fazendo lá. Gritam por educação, justiça, saúde, mas não entendem que esse processo é interno. Gritam para si mesmos. Reivindicam aos políticos, sem saber que os políticos são eles mesmos. Clamam por algo que somente cada um pode buscar. E quando encontrarem essa força interna de consciência, ninguém mais precisará sair às ruas, pois os governantes serão eles mesmos.

Gandhi foi um dos maiores manifestantes que já existiu e podemos nos basear em seu comportamento exímio em colaborar pelo bem da sociedade. Só que os votos e o compromisso começaram por ele mesmo.  Gandhi era um homem sábio, tinha conhecimento, praticava yoga, era vegetariano, adepto de “ahimsa” (não-violência), posicionava-se contra o sistema de castas, apoiava os dalits, era amoroso e resistia pacificamente. Desde a marcha do sal até o movimento que conquistou a Independência da Índia, ele se manteve firme e forte em seus princípios e valores, sem ceder.

Então eu pergunto: Quem estaria disposto a fazer o que ele fez, nesse nível de profundidade?

Talvez ninguém esteja tão comprometido como ele estava.

E era isso que eu queria dizer.

Palavras como luta, batalha, conquista e um mundo melhor ,só podem começar em um lugar: dentro de nós mesmos, através de um grande esforço interno de nos tornarmos pessoas melhores e mais evoluídas.

Grande Abraço a todos e continuem o movimento de resistir pacífica e internamente a tudo aquilo que nos faz mal.


Parabéns Brasil, esse movimento já é um começo de uma lenta reforma íntima que precisa acontecer, urgente!!!

Patrícia Cândido*

* Patrícia Cândido - É escritora, Terapeuta Holística, Palestrante, Pesquisadora, Psicoterapeuta Reencarnacionista, Radiestesista, Mestre Reiki, Mestre Karuna Reiki e Mestre Seichim (Cura Egípcia). Conheça mais acessando seu site: www.luzdaserra.com.br/conectados/patriciacandido

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